Texto 9: O grito do Eu no seu paradoxo. Configuração do Tédio no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa

Pina, Sónia (2007) O grito do Eu no seu paradoxo. Configuração do Tédio no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa

[excerto]

(…)

Mais do que referenciar a melancolia, o semi-heterónimo Bernardo Soares incorpora, por excelência, a fisicalidade do entediado. A náusea que diz sentir face à vida e aos outros, e o nada que afirma sentir de forma repetida, denotam a perda estrutural de sentido que sente e que traduz a perda de sentido do Ocidente após a ‘morte de Deus’, e o traço do melancólico. Existe na circunstância do entediado uma dimensão de imanência em relação ao mundo e aos objectos, onde a condição existencial é cénica, isto é, representada na escrita e na arte.
Segundo Christine Buci-Glucksmann, a melancolia é um estado de efemeridade que decorre da bílis negra do gregos e da acedia como espécie de doença que resultava das obrigações dos homens face a Deus no Cristianismo dos séculos XII e XIII. A efemeridade da melancolia atravessou os tempos através da forma ontológica que incarnou: a alienação de Si. Ganha uma dimensão moderna quando surge como interiorização depressiva da morte, como uma espécie de entrada em crise do sujeito, ou condição intervalar onde o outro se revela. E a arte, sobretudo a poesia, constitui-se na metáfora da ausência, da falência, da ironia e do trágico. (Buci-Glucksmann, 2005)

Entre uma estética da indiferença e uma estética da decadência, há em Pessoa e no Desassossego esta pulsão ao diálogo infinito que, segundo Buci-Glucksmann, obedece à lógica dualista da contradição do Ser e do não-Ser sustentada pela Ontologia Ocidental. (Idem)
Perante uma vontade-sem-vontade que é característica do melancólico, confronta-se o seu portador com o sofrimento, e Bernardo Soares incorpora o sofrimento do moderno que não encontra resíduo de sentido e entra em economia existencial até ao nada:

Arcaram os nossos argonautas com monstros e medos. Também, na viagem do meu pensamento, tive monstros em medos com que arcar. No caminho para o abismo abstracto, que está no fundo das coisas, há horrores, que passar, que os homens do mundo não imaginam e medos que ter que a experiência humana não conhece; é mais humano talvez o cabo para o lugar indefinido do mar comum do que a senda abstracta do vácuo do mundo.[125]

A racionalidade moderna ao submeter à análise os pressupostos de sentido que se fundamentavam na metafísica, provocou a ruptura que conduziu a uma crise de sentido que, por sua vez, deu lugar ao vazio existencial ou vacuidade. Perante esta sensação de lugar indefinido, é no âmbito da escrita poética que se faz o trabalho de teia para preencher o vazio deixado pela metafísica. A escrita constitui-se, assim, prática profiláctica, cujo resultado é, porém, de fragmentação e inconsistência. Estabelecendo-se uma relação entre a sensação de vacuidade e a perda de si. O que parece induzir a perda da essência, sendo o Livro convocação persistente do sentido, de si ou da alma:

O Tédio … Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. A quem não tem crenças, até a dúvida é impossível, até o cepticismo não tem força para desconfiar. Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.[263]

No Livro do Desassossego, Pessoa regista o processo de despersonalização pelo qual passa e que acontece em razão do tédio profundo face ao sentimento provocado por uma existência perene e vazia. Este sentimento de inutilidade, de afirmação da unidade perdida e de perda de um sentimento de Ser conduz ao estado de estagnação, de suspensão e abnegação do sentir, que é transversal e redundante a todo o Não-Livro. A opção pelo tom confessional significa a reentrância na alma. O Livro configura um confessionário ou tribunal, onde Pessoa é, simultaneamente, réu e juiz do exame de consciência que enceta, convocando-se a si mesmo. Assim, entre a sua ânsia de sentir e o sofrimento causado pelo sentir, resulta uma inquietação profunda, no centro do indelével estado de dormência e de doença ou febre de que Bernardo Soares padece.

Entre o almejo da cura e a afirmação da sua impossibilidade, o tédio é, enfim, a condição única da possibilidade de se estar vivo. No texto, dentre as expressões intrinsecamente associadas ao estado do tédio, encontram-se:

vaga náusea que trago comigo e não expeli fisicamente [112]; abismo abstracto [125]; vida vegetativa da alma [126]; eterna ausência da minha alma verdadeira  [126]; íntimo pensar, um sentir mais meu [126]; uma vontade perdida [126]; labirinto do que realmente sou. [126]; desamparado e oco, parecendo que morri e vido, pálida sombra dolorida; estado intermédio da alma [293]; desolação da criança triste que intimamente somos [263]; insatisfação de quem precisa mão que o guie  [263]; a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade…[263]; quietismo estético da vida [314]; cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço [337]

As quais tendem a convergir para: abismo, défice de vida e de existência, náusea de existir, estado-intermédio, labirinto-interior, vontade perdida ou renúncia do desejo, insatisfação, identidade, ipseidade, sofrimento, sombra, possessão, perda, falta, compleição e desassossego. Tudo isto indicia o tédio, primeiro, porque remete para uma existência interior e, depois, porque faz referência ao estado da alma que se encontra cindida devido a uma perda ou fractura original. A insistência simbólica na sensação do mal-estar remete para uma reincidência no trauma, aludindo a um destino sísifico do qual é impossível escapar. Sendo a instância temporal presente nos fragmentos espiral e convexa, disforme e dormente, permite, por sua vez, a condição para o espaço-intermédio ou intervalar onde se intensifica a tensão entre as forças opostas: tudo e nada, finito-inifinito, Eu e não-Eu, que participam de um movimento relacional. Este, à guisa de Heidegger, desenrola-se num interminável dasein, em prol de uma existência autêntica(3) que se sabe à priori estar irremediavelmente condenada a um devir ensimesmado. E o que parece soçobrar é resto, nada e vazio (falta de plenitude), devido à efectiva impossibilidade do absoluto. Neste interminável devir do desejo de estar-aí de forma autêntica, Bernardo Soares, em devaneio, sobrevive e alimenta-se do tédio, sendo a escrita a plastificação desta existência entediada e entediante. Sendo, também, na sua escrita diarística e confessional, que Bernardo Soares, ensonado, endossa consistência:

Subsisto nulo no fundo de toda a expressão , como pó indissolúvel no fundo do copo onde se bebeu toda a água. [12]
E, dessa forma, os dias vãos se sublimaram em acto de prolixa abstracção poética:
E na mesa do meu quarto absurdo, reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me no poente impossível dos montes altos vastos e longínquos, da minha estátua recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático. [Autobiografia sem Factos: 4, p. 24]

A sensação do tédio que é repetidamente afirmada na escrita do desassossego parece constituir um lamento de abnegação existencial e a expressão da incapacidade efectiva para ultrapassar o mau-estar. O estado do tédio pessoano qualifica-se, assim, como estado sonâmbulo, prefigurando uma espécie de combinatória entre o sonâmbulo e o abúlico:

Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte… Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta – o certo é que sinto como se, no fim de um piorar doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida. [40]

Este estado sorumbático é, por tal, revelador da sua incapacidade para viver, que é casualmente órfã da espiritualidade e que, face ao inelutável desejo, releva da renúncia e manifesta-se no augúrio da morte.

Em suma, o tédio consiste na reflexão que tende a perder de vista o mundo. O trabalho de escrita aparece como prescrição, como remédio para combater os sintomas do estado febril provocado pela existência insípida e o tempo livre, constituindo, como refere Buci-Glucksmann, “uma interiorização depressiva da morte, como uma espécie de entrada em crise do sujeito” (2005), ou seja, e em última instância, remete para a consciência da ruptura e da finitude, como um estado de morte dentro da morte, tal como a seguir refere Svendson: “L’ennui profond est un sort de mort, la morte apparaît comme l’unique rupture totale avec l’ennui. L’ennui a trait à la finitude et au néant. C’est une mort dans la mort, un non-vie. L’inhumanité de l’ennui nous permet d’avoir une perspective sur notre propre humanité.” (Svendsen, 2003)

(…)

Melancolia Eu Sou

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About Sónia Pina

Investigadora em Filosofia da Comunicação, New-media, Old-media, Ontologias digitais, Fluxus, Visualismo, Info-estética (protocolos visuais da comunicação), Intermedialidades na arte;

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