“I Like America and America Likes Me”: a aktion trangressora e o corpo por-vir no artivismo de Joseph Beuys

Comunicação “I Like America and America Likes Me“: a aktion trangressora e o corpo por-vir no artivismo de Joseph Beuys”, apresentada no Festival LINE-UP,  em Coimbra a 21 de Outubro de 2010.

Joseph Beuys, I Like America and America Likes Me, 1974
René Block Galle
ry, New Yor, Photo: Caroline Tisdall (c)1997 Estate of Joseph Beuys/ARS, NY

Sinopse:

Joseph Beuys apresenta, em 1974, na Rene Block Gallery, em Nova Iorque, a epitomática acção nomeada “I Like America and America Likes Me”. Devido ao mediatismo que recebeu esta sua visita aos E.U.A, esta performance foi responsável pela divulgação da sua “Plástica Social” ao garantir o seu reconhecimento na cena artística nova-iorquina. Tendo vindo, nesse contexto, Beuys a conhecer e estabelecer uma amizade sólida com Andy Warhol, o pai da Pop Art.

Esta performance explorava a crítica à sociedade de consumo americana, a questão da colonização, o povo ameríndio, a ancestralidade e a alienação mediática. Pela utilização do coiote evocou a regressão, o retorno às origens, o povo nativo. Consistiu esta na ritualização durante mais de três dias, no espaço da galeria, inacessível ao público mas visível, a relação mitológica homem/animal, ao mesmo tempo que colocou em confronto os opostos cultura/natureza, passado/presente e ocidente/oriente. O coiote era o animal totémico, a representação simbólica da espiritualidade da cultura nativa americana, elemento transitivo para a reflexão sobre a essência.

O acontecimento não contou com muitos visitantes e foi envolto em polémica e considerado, inclusivamente, de mau-gosto. O público não foi capaz de se relacionar e identificar facilmente com Joseph Beuys, em particular com o espectáculo que proporcionou na galeria, numa experiência real do tempo. Para muitos(as) era um espectáculo grotesco estar confinado a um espaço exíguo com um coiote. Não teve muitas visitas, e hoje tem-se conhecimento de que aconteceu devido ao registo fotográfico de Caroline Trisdall (1997) que o documentou e publicou, sendo o único que se conhece. Muito embora exista um outro registo videográfico da sua chegada ao aeroporto J. F. Kennedy, resultante da cobertura mediática que recebeu, pois Beuys exigiu não colocar os pés em solo americano e ser transportado de ambulância até à galeria. Aí seguiu envolto em gaze, tal qual um enfermo, até à Rene Block Gallery.

A acção começou logo aí, com o seu statement de recusar tocar o solo americano.  E continuou depois na galeria, no momento em que o enfermo veste a pele do xamã. O xamã vinha curar o trauma americano, sensibilizar para a questão ambiental, para o desperdício e para a questão das reservas índias. Beuys empunhava, por meio da acção artística, este grande desígnio filosófico de reabilitar a espiritualidade ocidental. Na galeria desempenhou durante todo esse tempo, num total de oito horas por dia, a figura do supliciado envolto em feltro que vinha exorcizar os males da civilização americana.

Coincide esta acção com o apogeu da cultura pop. E contrastava a sociedade americana, que exportava toda uma iconografia pós-beatnic e os ídolos do cinema como James Dean, Elizabeth Taylor ou Marilyn Monroe, com a Europa de um Joseph Beuys, ainda traumatizada pelo pós-guerra e a sair lentamente de um prolongado inverno ideológico, profundamente marcado pelos regimes ditatoriais e a falta de liberdade. Beuys imbuído do mesmo espírito que irradiava a Europa e com álacre proselitismo – tal como o descreveu Delfim Sardo (2006) -,  enverga a inelutável missão de estetizar a sociedade.

Talvez não tenha sido compreendido. Mas hoje, em revisão, é possível identificar similaridades entre a sua Plástica Social e a Pop Art. Aparentemente de matizes bem distintas, porém, ambas parecem sobrelevar da massificação do consumo. Tanto a Pop Art como Arte Fluxus, da qual Joseph Beuys foi eminente percursor, marcaram a viragem da modernidade para a pós-modernidade da cultura ocidental.

 (…)

Sónia Pina

Coimbra, 21 de Outubro de 2010

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About Sónia Pina

Investigadora em Filosofia da Comunicação, New-media, Old-media, Ontologias digitais, Fluxus, Visualismo, Info-estética (protocolos visuais da comunicação), Intermedialidades na arte;

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