Fluxus em Portugal [?] – in-progress#1

“A arte entendida como o discurso plural per se – por que mais do que dizer, interpela – permite-nos (re)pensar o mundo na sua possibilidade comunicacional e ser laboratório de ideias. Talvez, por isso, o Fluxus classificado etimologicamente como ‘fluir’, ‘transmutação’e ‘transformação’ seja percepcionado mais como processo de pensamento e método que movimento historiograficamente situado. Entendemos que nessa premissa assenta, precisamente, a pungência do legado do Fluxus, com uma importância especialmente reconhecível nos estudos interdisciplinares em ciências da comunicação.” – IN monografia FLUXUS: DO TEXTO À ACÇÃO A cartografia de uma a(r)titude (Fluxus em Portugal), 2011.

Depois de alguma reflexão sobre como abordar o tema Marcas do Fluxus em Portugal, algumas questões sobrevieram.

  • O que se pode dizer acerca da investigação actual em artes expandidas em Portugal?
  • Quais os obstáculos encontrados a uma efectiva investigação/metodologia inter e multidisciplinar?
  • Como não reincidir em formulas lineares, datadas e unidimensionais?
  • É hoje importante contemporanizar o conhecimento?
  • Como realizar um “proper” estado-da-arte das artes expandidas em Portugal?

O Fluxus trouxe um corpo doutrinal singular às artes que se caracterizou pela atitude estético-crítico-comunicacional de ruptura com os modelos protocolados das artes e incluía visões futuristas de uma utopia comunicacional. Modelo altamente devedor das anteriores correntes surrealistas e dadaístas, commumente nomeadas de “1ª vanguarda” que ao serem conjugadas com a tecnologia audiovisual e multimédia, que dava os primeiros passos, suscitava o interesse dos mais curiosos impelindo-os à experimentação. Ao mesmo tempo, havia uma desconfiança justificada dos mecanismos de memória da arte, que deliberadamente subtraiam e desprezavam as correntes mais alternativas e marginais.

Paralelamente a estes posicionamentos meta-artísticos que surgiam num cenário de pós-guerra (2ª) na Europa, evidenciava-se também um grupo de intelectuais europeus que vieram a fundar a Escola de Frankfurt (Habermas, Benjamin, Adorno, Marcuse, etc.), que introduziram um pensamento filosófico interdisciplinar de ruptura que incidia sobre comunicação, técnica, sociedade do consumo, arte, e que usava a crítica como método. Muito embora a Escola de Frankfurt se tenha formado na Europa, foi nos Estados Unidos que colheu massa crítica. Talvez, por isso, os estudos em torno do movimento artístico Fluxus tenham tido espaço para evoluir aí, por estes se enquadrarem justamente nessa vertente crítica de análise das Ciências Sociais devedora da Escola de Frankfurt e que grande expressão granjeia no MIT. Focámos particularmente o ACT – Program in Art, Culture and Technology, que desenvolve um programa de investigação que versa sobre as artes expandidas e intermediais, e acolhe o arquivo do CAVS – Center for Advanced Visual Studies que custodia uma repertório de materiais relacionados com as colaborações colectivas geradas por 100 artistas internacionalmente reconhecidos dos últimos 40 anos, designadamente time-based media, posters, fotografias, mais de 130 documentos incluindo as notas de artistas, esquissos, e correspondências de, por exemplo, György Kepes, Aldo Tambellini, Stan van der Beek, Charlotte Moorman, Antoni Muntadas, Nam June Paik (Fluxus), Otto Piene, Yvonne Rainer, Maryanne Amacher, Alan Sonfist, Takis, Jack Burnham, Krzysztof Wodiczko, Judith Barry, Damon Rich, John Malpede, Michael Smith, Fritz Haeg, Vito Acconci (Fluxus), Mel Chin, entre muitos outros (as).

Crê-se pois que, para traçar um ‘devido’ “estado-da-arte” do início e evolução das artes expandidas impõe-se necessariamente quer a presunção da análise crítica aos preceitos actuais de documentação das artes mutidisciplinares/intermediais quer a consideração da história dos media/da tecnologia.

 

[…]

Sónia Pina, 21 Jul 2016

1º texto ‘de processo’ de uma série que integrarão o Diário de Bordo das ‘matizes’ da investigação em torno das artes expandidas/intermediais em Portugal.

 

 

 

 

 

 

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About Sónia Pina

Investigadora em Filosofia da Comunicação, New-media, Old-media, Ontologias digitais, Fluxus, Visualismo, Info-estética (protocolos visuais da comunicação), Intermedialidades na arte;

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