AGAMBEN, Giorgio, O que é o Contemporâneo? e outros ensaios

contemporaneo

“Ainda que algumas correntes do pensamento contemporâneo postulem meios de reprodução e manutenção do mecanismo político, sugerindo o acolhimento dessa situação e aceitação de uma humanidade que não encontra outras tarefas históricas senão na sua autogestão (seja por meio dos ditos ‘consensos democráticos’, ou, ainda que renegadas, pela via dos novos fundamentos religiosos e pela violência ditatorial muitas vezes travestida), Agamben propõe uma outra saída: a profanação dos dispositivos de governo e a assunção de um ingovernável como ponto de fuga e início de uma nova política.” – Prefácio Susana Scramim e Vinícius Nicrasto Honesko, 2009

«1. A pergunta que gostaria de escrever no limiar deste seminário é: “De quem e do que somos contemporâneos?, E, antes de tudo, o que significa ser contemporâneo?”. […] Numa anotação dos seus cursos no Collège de France, Roland Barthes resume-a deste modo: “O contemporâneo é intempestivo”. Em 1874, Friedrich Nietzsche, […] publica as Unzeitgemässe Betrachtungen, as “Considerações Intempestivas”, como as quais quer acertar as contas com o seu tempo, tomar posição em relação ao presente. “Intempestiva esta consideração o é”, lê-se no início da segunda “Consideração”, “porque procura compreender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a epóca justamente se orgulha, isto é, a sua cultura histórica, porque eu penso que somos todos devorados pela febre da história e deveremos ao menos disso nos dar conta”. Nietzsche situa a sua exigência da “actualidade”, a sua “contemporaneidade” em relação ao presente, numa desconexão e numa dissociação. Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber a apreender o seu tempo. […] A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, esse é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela.» – Agamben, pp. 57-59

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About Sónia Pina

Investigadora em Filosofia da Comunicação, New-media, Old-media, Ontologias digitais, Fluxus, Visualismo, Info-estética (protocolos visuais da comunicação), Intermedialidades na arte;

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